No meu segundo ano em Educação Especial chegou à minha vida um menino de quatro anos.
Trazia consigo uma paralisia cerebral grave e um nível de incapacidade que, no papel, parecia esmagador.
Lembro-me da minha primeira reação.
Medo.
Medo de não saber.
Medo de não conseguir ajudar.
Medo de falhar.
Era inexperiente e senti-me pequena perante uma realidade para a qual ninguém nos prepara verdadeiramente.
Partilhei esses receios com outros profissionais e com a família. Não porque duvidasse dele, mas porque duvidava de mim.
Mas, ao mesmo tempo, havia algo mais forte.
Uma vontade enorme de me entregar.
De dar tudo o que tinha.
De aprender.
De procurar caminhos.
De acreditar que, mesmo quando não sabemos como, o amor encontra sempre uma forma de chegar ao outro.
Ele não falava.
Mas tinha um olhar que intimidava a minha alma.
Um olhar que parecia perguntar:
"E agora? O que vais fazer com tudo isto?"
E eu fui ficando.
Dia após dia.
Descobri que as maiores conquistas nem sempre cabem em relatórios.
Às vezes são quase invisíveis para quem vê de fora.
Como o dia em que virou a cabeça para me procurar.
Ou quando começou a seguir a minha voz.
Ou aquele sorriso que aparecia quando algo lhe dava prazer.
Ou as sucções de agrado que se tornaram uma forma de comunicação entre nós.
Descobrimos juntos que conseguia ver muito mais do que imaginávamos, desde que os objetos lhe fossem apresentados num determinado ângulo.
Descobrimos o seu amor pela música clássica, que tantas vezes o tranquilizou.
Descobrimos o prazer que sentia ao tocar as gotas da chuva no rosto.
E descobri que, quando se balançava no meu colo, estava a pedir-me uma dança.
Foram pequenos passos.
Mas de conquistas gigantes.
Foi ele que me ensinou que a educação não se mede apenas pelo que uma criança consegue fazer.
Mede-se também pela nossa capacidade de ver aquilo que os outros ainda não conseguiram descobrir.
Hoje continuo a encontrar muitas crianças extraordinárias.
Mas aquele meu pequeno menino ocupará sempre um lugar especial.
Porque foi ele que me ensinou que a inclusão não começa nos recursos.
Não começa nas estratégias.
Nem sequer começa na formação.
A inclusão começa quando alguém olha para uma criança e decide acreditar nas suas possibilidades antes de acreditar nas suas limitações.
Foi ele que me fez acreditar, de uma forma que nunca esquecerei, na força transformadora do amor.
Qual foi a criança que mudou a tua forma de olhar para a educação?
Eu lembro-me perfeitamente da minha. 💛


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